Atendimento

(11) 98752-6745

Agende um atendimento

R. Dr. Bacelar, 231 - s.16 - V. Clementino - S. Paulo - SP

Atendimento

(11) 98752-6745

Horários de Atendimento

Seg-Sex: 8:00 - 18:00

Agende um atendimento

R. Dr. Bacelar, 231 - s.16 - V. Clementino - S. Paulo - SP

Assistência domiciliar em Terapia Ocupacional

Camila Ribeiro Rocha; Maria Tereza Sales Furtado; Marilia Bense Othero.

INTRODUÇÃO

Segundo CREUTZBERG (2000), o atual perfil demográfico-epidemiológico aponta uma proporção crescente da população acima de 65 anos e fragilidades decorrentes de doenças crônico-degenerativas. As mudanças na família; a ineficiência e superlotação dos serviços institucionais; a diminuição dos custos do cuidado no domicílio em relação ao atendimento institucional, a busca pela humanização, conforto e segurança da assistência à pessoa e familiares e a inclusão de programas de atendimento domiciliar nas políticas de saúde nos mostram a importância da assistência domiciliar. Diante das situações de adoecimento, o sujeito se depara com limitações em seu cotidiano; reduzida participação em grupos e pessoas de outras faixas etárias, isolamento progressivo em seus domicílios, diminuição da atividade laboral, restrições em sua autonomia e independência. Para uma assistência domiciliar de qualidade, que atenda às reais demandas e necessidades de seus clientes, é preciso oferecer cuidados integrais, buscando estabelecimentos de vínculos além de um melhor conhecimento sobre a realidade do paciente.

De acordo com CARVALHO (2001), além dos cuidados previstos e definidos nas rotinas usuais de atendimento à camada populacional mais velha, um maior engajamento em afazeres que sinalizam vida com qualidade e efetiva adesão a programas educativos para valorizar sempre mais seus dons e qualidades, promovendo seu crescimento pessoal cultivando sua criatividade e aprimorando sua convivência social, são fundamentais para que se possa oferecer uma assistência de qualidade com baixo custo. Assim, a intervenção em Terapia Ocupacional passa a ser fundamental, pois irá contribuir para melhoria da qualidade de vida do paciente, ou seja, para a continuidade da vida ocupacional significativa do doente e de sua família.

Visando oferecer uma assistência de qualidade para seus clientes e familiares, a São Paulo Internações Domiciliares conta, desde maio de 2007, com o serviço de Terapia Ocupacional, implantado em conjunto com os serviços de Psicologia e Assistência Social, formando a equipe de Saúde Mental. Neste serviço, a atuação de Terapia Ocupacional se baseia no resgate da independência e autonomia de sujeitos acometidos por processos de adoecimento. Utilizando diferentes estratégias e abordagens (como prevenção de incapacidades, prescrição de dispositivos de tecnologia assistiva, treino de atividades de vida diária, atividades diversas, orientação e suporte a familiares e cuidadores, etc.), a intervenção em Terapia Ocupacional busca resgatar a existência de atividades significativas no cotidiano dos pacientes.

POPULAÇÃO ALVO

Segundo levantamento de dados do setor de Terapia Ocupacional (OTHERO, 2008), no período de maio de 2007 a maio de 2008, foram avaliados 68 pacientes na faixa etária entre 76 e 90 anos, havendo predomínio do sexo feminino – aproximadamente 58% da população atendida. Como diagnóstico principal, 30,76% desses pacientes apresentam “Sequelas de Acidente Vascular Cerebral”. Também estão presentes Insuficiência Respiratória, Artrite Reumatóide, Síndromes infantis, Esclerose Lateral Amiotrófica, Insuficiência Cardíaca Crônica, Infecções e Quadros Depressivos. Em relação ao perfil ocupacional, observa-se o predomínio de condições de semi-dependência e dependência para realização de atividades básicas de vida diária, além de déficits importantes na locomoção. Com relação às atividades instrumentais de vida diária, existe uma situação de empobrecimento do cotidiano, onde as principais atividades são apenas assistir televisão e ouvir música, como mostra o gráfico abaixo.

grafico

Assim, podemos notar que a vida doméstica desses pacientes encontra-se esvaziada de atividades significativas. Com o cotidiano empobrecido e as relações familiares organizadas em torno da doença, as relações pessoais tornam – se limitadas, há uma diminuição de autoestima, desvalorização dos pacientes enquanto sujeitos, situações de ansiedade e apatia, contribuindo para o aumento do número de internações.

ATENDIMENTO EM TERAPIA OCUPACIONAL: RELATO DE CASO

Segundo CARLETTI (2005), no processo de envelhecimento, os sujeitos se deparam com perdas progressivas, ficando mais suscetíveis a doenças crônico-degenerativas, que podem levar a situações de incapacidade e progressiva perda de autonomia. A proximidade da morte, as perdas afetivas, do poder aquisitivo, do status social e, na maioria das vezes, da produtividade, interferem de forma crucial no processo de adaptação a essa nova condição. Assim, para que esse processo ocorra de forma menos dolorosa, é fundamental que se respeite a experiência de vida do idoso, permitindo a expressão de suas potencialidades, ou seja, possibilitando a esse idoso o exercício de sua cidadania.

O presente trabalho busca ilustrar como a intervenção em Terapia Ocupacional pôde contribuir para a diminuição do número de reinternações. Trata-se de um estudo de caso de C.M.C., 70 anos, com diagnóstico principal de insuficiência cardíaca congestiva (ICC). C.M.C. iniciou o acompanhamento em Home Care em 23 de dezembro de 2007. Porém, o acompanhamento em Terapia Ocupacional teve inicio em 11 de dezembro de 2007. É separada, tem cinco filhas – todas casadas e com vida independente. É aposentada, tendo trabalhado na área gráfica. A paciente chegou para o serviço de Home Care com histórico de várias internações, cerca de sete por ano, há mais de cinco anos, que começaram quando a paciente perdeu seu papel produtivo: foi afastada do emprego, em auxílio-doença, e nunca mais conseguiu retornar ao mercado de trabalho. Além disso, o fato da desapropria- ção de sua casa contribuiu para a piora de suas condições de saúde. As queixas trazidas pela paciente eram dor na coluna lombar (de acordo com a escala analógica, dor grau 10); também relatou dispneia como um sintoma importante – segundo ela, o principal motivo de suas internações. É diabética, hipertensa, possui problemas renais e oftalmológicos.

Em avaliação, foi observado que a paciente apresenta comprometimento funcional em sua circulação em ambientes externos (necessita de bengala como dispositivo de apoio e já sofreu algumas quedas). É responsável pela administração de seus medicamentos, apresentando irregularidades em seu uso. Eram visíveis sua apatia e desinteresse crescentes, referindo sempre muita tristeza e sentimentos de incapacidade. Discurso coerente, com orientação tempo-espacial preservada. Seu cotidiano estava restrito ao ambiente doméstico, no qual se ocupa das tarefas de autocuidado e cuidados com a casa.

Aplicada a MIF (Medida de Independência Funcional) – instrumento validado internacionalmente para avaliação da capacidade de independência do indivíduo nas áreas de autocuidado, controle de esfíncteres, mobilidade, locomoção, comunicação, e cognição social – o score da paciente foi de 113 (em um score máximo de 126, para total independência). A partir da avaliação e das queixas da paciente, foi iniciado acompanhamento quinzenal em Terapia Ocupacional com o objetivo primário de enriquecer e organizar seu cotidiano, trazendo novas atividades para o aumento da autoestima e percepção de suas potencialidades.

O objetivo secundário era o de contribuir para sua adesão aos tratamentos e evitar suas frequentes reinternações. Durante os atendimentos, a atividade de pintura (em tecido e em tela) foi a escolha da paciente. A partir dos atendimentos, foi construído um vínculo inicial com a terapeuta e observou-se que a paciente conseguiu se valorizar e perceber suas capacidades.

No processo terapêutico, foram trabalhadas questões como relacionamento familiar, principalmente com suas filhas e seu neto. Era bastante difícil para a paciente o fato de suas filhas não estarem presentes em seu cotidiano. Além disso, sua relação com o neto não era saudável, com brigas e desentendimentos constantes. Foi possível avaliar que as relações pessoais se constituíram em um entrave para sua saúde emocional. Em muitos momentos, a não adesão ao tratamento e as consequentes reinternações passaram a ser uma estratégia da paciente para manter as pessoas ao seu redor.

Durante os atendimentos foi possível trabalhar estas questões e C.M.C. conseguiu participar, de forma bastante positiva, de uma reunião familiar. Este momento foi fundamental, pois a paciente pode perceber o quanto é querida e valorizada por seus familiares. Tal situação auxiliou C.M.C. no enfrentamento de sua relação com as fi lhas e o neto. Além disso, ela começou a fazer planos futuros de iniciar novas atividades, trazendo para seu cotidiano novos interesses e outras formas de relação, saindo do foco do adoecimento e evitando, assim, as frequentes internações.

É importante ressaltar que a vida doméstica e familiar comporta projetos, realizações, sentidos, bem-estar e não apenas rotina, monotonia e isolamento. Segundo SIEGMAN (2002), é fundamental que se construam possibilidades dos sujeitos exercitarem-se enquanto tal, ao tempo em que realizam, de fato, trocas sociais. Possibilitar enfrentamento de problemas, buscando novas formas de conhecimento, de relacionamento e de ação sobre o mundo se constituiu a base dessa intervenção.

RESULTADOS OBSERVADOS DIANTE DA INTERVENÇÃO DE TERAPIA OCUPACIONAL

A paciente foi acompanhada pelo setor de Terapia Ocupacional por cinco meses. Nesse período, pudemos observar sensível melhora de seu estado emocional geral, aumento de autoestima e percepção de suas potencialidades. A paciente não referiu os sintomas de dor na coluna lombar, dispneia e tontura.

É fundamental ressaltar que devido ao acompanhamento em abordagem multiprofissional e interdisciplinar, a paciente passou o período de final de ano na casa das filhas – fator decisivo para não internação nesse período. Pudemos observar que a paciente possui personalidade rígida, não aceitando nossas intervenções e orientações quanto ao uso das medicações. Mas, diante do vínculo estabelecido com a equipe, foi possível trabalhar seu processo saúde/doença, proporcionando maior adesão ao tratamento, maior percepção de suas necessidades e do que é importante para manutenção de sua saúde.

O processo terapêutico foi permeado por algumas dificuldades que apareceram desde o início da intervenção como a falta de rede social de suporte adequada e relações familiares são conflituosas. Porém, no decorrer dos atendimentos, essas questões puderam ser trabalhadas de forma positiva, evitando reinternações. Em maio de 2008, durante uma visita de Terapia Ocupacional, a paciente relatou tonturas, dispneia, edema em mãos e pés, dor ao urinar, visão turva, dor de cabeça em região frontal e queda da glicemia, principalmente à noite. Diante do quadro, a equipe foi acionada no mesmo dia e enviou prontamente o atendimento pré-hospitalar (APH).

A paciente ficou internada durante 20 dias por um motivo clínico significativo. Assim, é fundamental ressaltar a importância da comunicação entre a equipe multiprofissional e da abordagem interdisciplinar incisiva e assertiva. Diante do quadro encontrado, foi possível prestar a assistência necessária à paciente. Desde que se afastou do trabalho e iniciou seu processo de reinternações recorrentes, a paciente não havia ficado um período de seis meses sem internação, o que demonstra ainda mais a importância do trabalho realizado. É importante ressaltar que internação referida aconteceu por um motivo significativo.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A ação junto aos pacientes no ambiente domiciliar requer que se construam possibilidades dos sujeitos se exercitarem enquanto tal. A vida doméstica e familiar comporta projetos, realizações, sentido, bem-estar, e a atuação em Terapia Ocupacional são fundamentais no resgate das atividades significativas e da autonomia, auxiliando no processo de restabelecimento e melhoria da qualidade de vida.

Diante do caso exposto, percebemos a importância das intervenções de Terapia Ocupacional. A partir dos atendimentos, foi possível observar enriquecimento do cotidiano através da reinserção de atividades significativas, aumento da qualidade das relações familiares, diminuição das situações de apatia e ansiedade. Ou seja, promoveu-se saúde, com um menor foco no adoecimento e maior validação do paciente como um sujeito (com valor, história, desejos), dentro do contexto familiar.

Dessa forma, é importante entender o processo terapêutico como um processo de transformação e crescimento, descolando-se de uma visão puramente biomédica e tecnicista, promovendo em crescimento positivo em direção à integridade pessoal, singularidade e autossuficiência (CARVALHO, 2001). Para que seja oferecida uma assistência de qualidade e integral é necessário levar em consideração os aspectos emocionais e ocupacionais dos pacientes. Além, é claro, dos cuidados técnicos, proximidade física, presença solidária, sensibilidade, emoção, criatividade, respeito pelos costumes e culturas, valorização das interações sociais e de trabalho e atenção nas conversas para não infantilizar as relações, preparo mais cuidadoso para a alta hospitalar, evitando a reinternação (CARVALHO, 2001). Vemos também que o trabalho em equipe é fundamental, mas ainda é preciso maior divulgação do trabalho em Terapia Ocupacional para a própria equipe e para as operadoras de saúde, demonstrando sua eficácia e abrindo novas possibilidades para melhoria da qualidade de vida da população. No âmbito privado, é um grande desafio a presença de terapeutas ocupacionais nas equipes, pois ainda não há reconhecimento deste campo de intervenção pelas operadoras de saúde.

Vale ressaltar que o atendimento a que nos referimos neste caso resultou em melhoria na qualidade da assistência e contribuiu efetivamente para a redução dos custos tanto da empresa de home-care quanto da operadora de saúde. Portanto, é imprescindível que esta realidade mude. Os profissionais da área devem sempre divulgar seu trabalho, demonstrando sua importância e eficácia na melhoria da qualidade de vida dos sujeitos atendidos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CARLETTI, S. M. M.; REJANI, M. I. Atenção Domiciliária ao Paciente Idoso. In: Netto, M. P. Gerontologia. A velhice e o envelhecimento em visão globalizada. São Paulo: Editora Atheneu, 2005.

CARVALHO, V.L.; PEREIRA, E.M. Crescendo na diversidade pelo cuidado domiciliar aos idosos – desafios e avanços. R. Bras. Enferm., Brasília, v.54, n.1, p. 7-17, jan./mar. 2001.

CREUTZBERG, M. “… Tratar mais a pessoa idosa, sobretudo a que está acamada”: subsídios para o cuidado domiciliar. O Mundo da Saúde, São Paulo, ano 24, v.24, n.4, jul./ago., 2000.

OTHERO, M.B. Terapia Ocupacional na Assistência Domiciliar. Perfil e resultados. Maio de 2007 a maio de 2008. São Paulo Internações Domiciliares, 2008 (mimeo).

SIEGMAN, C.; PINHEIRO, C. A.; CARVALHO, M. A. Terapia Ocupacional e pacientes acamados: ações comunitárias baseadas na identifi cação de problemas. Rev. Ter. Ocup. Univ. São Paulo, v.13, n.1, p. 37-43, jan./abr. 2002.

Artigo Publicado originalmente em: PRATA DA CASA 1. Escritas do Cotidiano de uma equipe que Cuida. SP: Oboré, 2008.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *